Lembrando Percursos Beneditinos GAMT - Tibães em Braga I

No âmbito do projeto GAMT "Percursos Beneditinos", temos vindo a visitar espaços onde a memória beneditina se encontra viva, visível e, em alguns casos, bem conservada.
Neste sexto itinerário, fomos conhecer e reconhecer património do Mosteiro de Tibães na cidade de Braga. Visitámos espaços religiosos, culturais, espaços públicos que nos mostraram património, falaram-nos da história de Tibães e da congregação beneditina.
Sé de Braga torres sineiras e orago
No dia sete de fevereiro de 2015, pelas nove e meia da manhã, começámos então a concentrar-nos diante do portal principal da Sé de Braga. Éramos um grupo numeroso, cerca de quarenta participantes, o dobro do previsto, quando, pelas dez horas, entrámos na Sé de Braga.
Esta basílica primacial é um valioso complexo religioso que remonta aos inícios da nacionalidade. Ali, podemos apreciar vários gostos arquitetónicos, desde o românico, passando pelo gótico, manuelino, até ao barroco.
Sé de Braga lampadário
Subindo a nave central, na zona do transepto e diante do altar-mor da catedral, principiámos por admirar o deslumbrante lampadário e banqueta de prata, datado de 1788, provenientes da capela-mor do Mosteiro de Tibães.
Dirigimo-nos à sacristia e deparamo-nos com um espaço acolhedor. Contrariamente ao corpo do templo, é uma divisão bem iluminada por rasgadas janelas, com uma extraordinária cobertura em abóbada de caixotões em pedra, contendo dois extensos arcazes e lindos retábulos-relicários. Nos gavetões dos arcazes, encontrámos algumas alfaias, paramentaria e, por cima destes móveis, dois valiosos espelhos com molduras dourados que, tal como alguns paramentos, foram retirados da sacristia do Mosteiro beneditino de Tibães.
De seguida, encaminharam-nos para a secção do Tesouro-Museu recentemente ampliado e melhorado, onde a sua curadora, para melhor observação, expôs gentilmente algumas peças de vestuário litúrgicas (estolas, casulas, dalmáticas e pluviais) usadas nas celebrações, também oriundas do Mosteiro tibanense.
Continuámos a nossa visita na Biblioteca Pública e no Arquivo Distrital, cujas instalações se encontram ainda no antigo Paço do Arcebispo D. José de Bragança.
Escadas de acesso ao salão nobre
Na escadaria de acesso ao Salão do Arquivo pudemos visualizar com agrado, na parede de um patamar das escadas, o quadro com a carta de Couto de Tibães e os retratos do Conde D. Henrique e da Rainha D. Teresa. Este documento atesta a antiguidade e nobreza do couto, nele se estabelecendo o antigo concelho de Tibães e regulando a sua administração com deveres e privilégios. Quão agradável seria o seu justo retorno ao Mosteiro de Tibães, sem dúvida um espaço mais honroso, no decorrer deste ano em que se celebram os quinhentos anos do Foral Manuelino!
Carta de Couto de Tibães
Entrados nas lindas acomodações onde se conserva parte da livraria de Tibães, admirámos com entusiasmo um conjunto documental bem diverso como recibos, salários, pensões, visitas, arrendamentos e outros manuscritos da livraria do nosso mosteiro. Para a maioria dos visitantes, tratou-se da descoberta mais significativa do dia, sossegando os espíritos pelo bom estado de conservação em que se encontram estes documentos. O cartório encontrava-se exposto para a nossa visita.
Painel de azulejos do Mosteiro de Tibães
Terminámos este percurso no átrio da Reitoria, no Largo do Paço, para vermos os dois painéis de azulejos oriundos do Claustro do Cemitério do Mosteiro de Tibães. São painéis de azulejos de estilo rococó, datados de 1770, que historiam a vida de São Bento em cenas figuradas monocromáticas a azul e branco. Embora embeleze o espaço, desde que o Mosteiro foi exemplarmente recuperado, a área deixada em branco na parede original, aguarda a sua sensata devolução.
Cumprida esta etapa em mais uma iniciativa gratuita, e como a curiosidade é muita, instalou-se de imediato o desejo que o próximo percurso não tardasse.
Sócio do GAMT nº 2

Sé de Braga - basílica primacial

Portal principal Sé de Braga

Sé de Braga gostos arquitetónicos

Paço do Arcebispo D. José de Bragança

Átrio da Reitoria no Largo do Paço

Lembrando Percursos Beneditinos GAMT - S. Bento em Braga I

Dando observância ao nosso plano de atividades para 2016, realizámos no dia 5 de Novembro o 13º Percurso Beneditino, a primeira etapa do projeto S. Bento em Braga.
Era dia do habitual mercado na cidade de Braga, as pessoas rodopiavam na rua carregadas de compras, algo friorentas. O tempo esfriara e apresentava uma ténue ameaça de chuva fria e um sol envergonhado.
Fachada da Igreja do Carmo 
Achávamo-nos já na hora de avançar. Formado o grupo, tendo como mote S. Bento, começámos por visitar a igreja do Carmo, pertencente à Ordem dos Carmelitas Descalços, que em setembro de 2012 foi classificada como Monumento de Interesse Público. Em 1898, a fachada da primitiva igreja, simples e sóbria, estava em desaprumo e ameaçava ruína. Por este motivo, pensaram em substituí-la com projeto feito pelo arquiteto Moura Coutinho, ficando concluída em 1911.
É este o alçado imponente que podemos observar e que conheceu a elevação que ainda hoje conserva, com a torre central a aparentar uma espécie de trono em honra de Nossa Senhora do Carmo, em vários andares, dividido em quatro registos por duplas cornijas. Esta fachada é aberta, no piso térreo, por três arcos de volta perfeita: o central permite o acesso à igreja e os laterais às antigas dependências conventuais.
Entrando na igreja, os nossos olhos enchem-se com a visão da nave única ornamentada com talha dourada omnipresente nas sanefas e retábulos barrocos e neoclássicos que nos aquecem o espírito. É uma construção com planta em forma de cruz latina, com coro alto onde se destacam as caixas dos órgãos com forma de bacias, dois púlpitos e duas capelas laterais, uma delas dedicada a S. Bento.
Núcleo Museológico do Carmo
Fomos então recebidos por um padre da comunidade carmelita que nos abriu as portas das dependências reservadas e simpaticamente nos acompanhou na visita para nos facultar mais pormenores do espírito carmelitano. Depois de uma breve contextualização orientada pelos nossos estimados guias, Eduardo Oliveira e Aida Mata, dirigimo-nos à zona cruzeira coberta por uma luminosa cúpula em cujo transepto se encontram outros dois maravilhosos altares.
Se a talha dourada nos prendeu a atenção, o conjunto da imaginária de vulto, estofada, dourada e policromada, deslumbrou os nossos olhos.
De seguida, no acesso à sacristia, encaminhamo-nos para o Núcleo Museológico do Carmo inaugurado em 2013. O espaço contém imagens, paramentos, documentos sobre a vida dos carmelitas naquele convento e outros objetos de culto da instituição religiosa. Destacamos a sua extraordinária sacristia com retábulos, relicários e volumoso arcaz, não esquecendo a sua extensa antecâmara com lavabo de parede.
O percurso contemplava ainda a igreja de S. Vicente, para onde nos deslocamos por volta do meio-dia. Ali, esperava-nos o sócio do GAMT, José Pinto, Juiz Presidente da Irmandade de São Vicente, para nos abrir as portas, acompanhar na visita e acrescentar informação.
Fachada da Igreja de S. Vicente
Depois de uma breve alusão à presença de primitivo templo num terreno lateral, principiámos por observar a fachada harmoniosa do templo que nos faz presumir que estamos diante de um quadro granítico de cariz barroco. A coroar a frontaria temos a imagem do patrono, S. Vicente, agasalhada num nicho, e, por cima deste, a cruz papal.
Entrados no interior da igreja, para além da inevitável perceção da valiosa e omnipresente talha dourada, aos nossos olhos destacaram-se os painéis de azulejos, a maioria datada do século dezanove, que relatam episódios históricos e martírio de São Vicente, o orago do templo.
Para finalizar, dirigimo-nos à sacristia. Na verdade, a sua remodelação não terá sido a mais feliz mas, segundo consta, terá ocorrido por questões de segurança do edificado. No entanto, possui objetos de interesse para apreciação. Por exemplo, numa das paredes, guarda um tesouro de estimar: uma lápide tumular visigótica com uma inscrição epigráfica que explicará a existência de um templo primitivo, bem anterior à atual igreja.
Em jeito de despedida, deixaremos aqui o registo do apelo da Irmandade de S. Vicente para a premência de uma intervenção no telhado, por parte da Direção Geral do Património Cultural, de forma a suster perigosas infiltrações que se afiguram desastrosas para um edifício há pouco tempo intervencionado.

Sócio do GAMT nº 2


Aula no interior da Igreja de S.Vicente




Sacristia da Igreja do Carmo
Epígrafe tumular visigótica - Sacristia da Igreja de S. Vicente


Lembrando Percursos Beneditinos GAMT - Penafiel

Os Percursos Beneditinos voltaram com a primavera, realizando-se, em meados de abril de dois mil e dezasseis, o décimo primeiro percurso.
Continuando na rota da memória beneditina, desta vez fomos visitar o Mosteiro de Bustelo, um dos mosteiros da congregação beneditina portuguesa, fundado em tempos medievais e reconstruído nos séculos XVII e XVIII, no concelho de Penafiel. Cumprindo a dimensão multidisciplinar dos percursos, tivemos também uma visita guiada ao Museu Municipal de Penafiel e visitámos a Igreja da Misericórdia.
A manhã de sábado, algo chuvosa, mostrava-se pouco convidativa para viagens, mas à hora da partida todos se apresentaram, ansiosos por novas descobertas. Chegados a Penafiel, onde outros participantes nos esperavam, o tempo já prometia consideráveis melhorias, parecendo premiar os que se sentiam impelidos pela riqueza patrimonial dos espaços a visitar.
Museu Municipal de Penafiel
Depois de uma curta pausa para café, o Museu Municipal de Penafiel, instalado no palacete Pereira do Lago, recentemente renovado, em pleno centro histórico, esperava por nós com as suas coleções que nos contam a história local, a arqueologia e a etnografia.
Entrados, percorremos cinco salas temáticas da exposição permanente dedicadas à identidade, ao território, à arqueologia, aos ofícios, à terra e água, com um discurso elucidativo e atual. Lográmos apreciar o espólio arqueológico proveniente das intervenções efetuadas no concelho. Ficámos a saber, através de uma guia atenta e capaz, que a coleção de etnografia tem sido objeto de recolhas regulares, com vista a atender a situações críticas de perda de bens móveis relacionados com as temáticas agrícolas, os ofícios, a atividade piscatória e de transporte fluvial e as festas.
Igreja da Misericórdia
Terminada esta primeira visita do dia que, entre outras lembranças, nos transportou para uma memória relativamente recente do mundo rural e que tende a desaparecer ao ritmo da rápida evolução tecnológica, dirigimo-nos para a Igreja da Misericórdia de Penafiel, situada a dois passos do museu, onde uma jovem guia nos aguardava. O itinerário contemplava todo o complexo associado à igreja, incluindo o atual museu de arte sacra.
A igreja, com construção datada entre 1620 e 1631, é um templo revelador de uma linguagem maneirista, de uma só nave e capela-mor, coberta por abóbada de berço com caixotões numa composição seiscentista. O frontispício inscreve-se nas denominadas fachadas-retábulos. O alçado da torre sineira, setecentista, termina numa cúpula bulbiforme, revestida por azulejos. A fachada apresenta, por cima do portal, um janelão com a imagem de Nossa Senhora do Amparo e, no frontão, uma moldura com as armas da Santa Casa da Misericórdia.
Cadeiral Barroco
O templo sofreu diversas alterações ao longo dos séculos XVII e XVIII. Destacam-se um conjunto de altares laterais e retábulo-mor de talha neoclássicos; o cadeiral barroco e o órgão, cuja caixa de talha dourada e policromada pertenceu ao Mosteiro de Bustelo.
Como estava programado, pelas treze horas, fizemos uma pausa para almoçamos uns saborosos rojões por um preço simpático, fruindo do tempo disponível para convivermos, num restaurante já perto do Mosteiro do Bustelo.
Cruzeiro Monacal
Passadas duas horas de intervalo, dirigimo-nos ao mosteiro. Esperava-nos um grupo de voluntários que se uniu para criar uma espécie de salvaguarda do bem cultural que representa o Mosteiro de Bustelo e assegura a sua abertura ao público, possibilitando o acesso à igreja, coro alto e claustro.
Logo no momento da chegada, deparamos com um cruzeiro monacal em tudo semelhante ao do Mosteiro de Tibães, apenas de dimensões ligeiramente mais reduzidas. A vista do conjunto arquitetónico é de alguma forma grandiosa.
Vencida a escadaria de acesso ao espaçoso adro, deparamo-nos com a portaria a ameaçar ruina, ostentando um esplendoroso brasão beneditino esculpido em pedra, e a fachada da igreja. As obras de remodelação do antigo mosteiro românico de Bustelo datam de 1633 e foram anteriores às da igreja.
Entrando na igreja, verificámos que possui uma planta cruciforme e nave única com teto de pedra em abóbada de berço. Do conjunto, sobressai a capela-mor com o seu deslumbrante retábulo do altar-mor em talha dourada de feição joanina e que evidencia já renovações que levariam ao rococó. A meio de cada par de colunas do retábulo figuram o padroeiro S. Miguel e o patriarca S. Bento. Na nave da igreja existem quatro altares, dois do lado do Evangelho e dois do lado da Epístola.
Igreja do Mosteiro de Bustelo
De seguida, circulamos pela sacristia, onde, para além do arcaz e oratório, se destaca um curioso pilar central de madeira que parece ajudar a suportar o peso da talha que forra o teto e termina numa base em forma de mesa/escrivaninha.
Dirigimo-nos depois ao claustro ajardinado, com um chafariz central ornamentado com o herói mitológico Hércules, e passamos pelo refeitório que conserva ainda elementos icónicos, como o púlpito do leitor, sendo atualmente usado como de sede à Associação Jovens de Bustelo.
Cadeiral em Talha do Coro Alto
Subimos ao piso superior para aceder ao coro alto, com um encantador cadeiral em talha e telas a óleo descritivas da vida de São Bento e Santa Escolástica. Ainda no coro, existem duas varandas, uma delas destinada a um órgão de tubos que se encontra na igreja da Misericórdia, em Penafiel, como já foi referido.
Antes de descermos, tivemos a oportunidade de visitar uma pequena área museológica criada no piso superior do claustro e em parte da ala conventual norte, ficando esses espaços exclusivamente destinados à evocação da memória do mosteiro.
Infelizmente e como inevitavelmente se esperava, foi possível constatar que o grande inimigo destes espaços patrimoniais é, para além do abandono a que foram votados, o mau estado das coberturas e vãos que arruínam progressivamente tetos, soalhos e paredes.
Para terminar, averbamos um voto de louvor ao grupo de voluntários do Museu do Mosteiro de Bustelo que faz os impossíveis pela salvaguarda do “seu” património. Perante uma atitude como a desta associação, não podemos deixar de desejar que mil exemplos como este floresçam para bem do legado patrimonial.

Sócio do GAMT nº 2

Lembrando Percursos Beneditinos GAMT - Minho

Recuando um pouco atrás nos itinerários beneditinos já realizados, recordamos aquele que foi efetuado no primeiro dia de Agosto do ano findo em que visitámos a paisagem de Orbacém e Gondar, freguesias perdidas no sopé da serra d'Arga, no concelho de Caminha, que até ao século XV pertenceram ao mosteiro beneditino de São Cláudio e o Convento de S. João de Cabanas, outrora beneditino, na freguesia de Afife.
Interior da Igreja S. Cláudio de Nogueira
Até àquele momento, a maior parte dos intervenientes não conjeturava que a história do Mosteiro de Tibães pudesse estar de alguma forma ligada a estas paragens do Minho, fosse pela cobrança de impostos ou pela existência de cenóbios pertencentes outrora aos monges negros de S. Bento. Afife seria, sobretudo, uma localidade com uma praia de areia branca e fina, a norte de Viana do Castelo, apetecível para uns banhos de sol e piqueniques conviviais em família no terreiro da capela de Santo António.
Saímos então, numa linda manhã de sol, do Mosteiro de Tibães para o nono percurso beneditino, dirigindo-nos para norte, rumo à Igreja de Nogueira, antigo Mosteiro de S. Cláudio, classificado como monumento nacional. Aqui, fizemos a primeira paragem com uma visita guiada por jovens historiadores/investigadores da Universidade do Minho que nos levaram a apreciar a arquitetura com os pormenores construtivos deste templo de estilo românico que reflete o que foi a construção religiosa dos séculos XI a XIII. Fizeram-nos uma resenha histórica do mosteiro e a sócia do GAMT, Anabela Ramos, coadjuvou no tema da incorporação de Gondar no Mosteiro de Tibães no século XVI, com os seus rendimentos, constando-se um proveito anual de 50 mil reis.
Aula em Orbacém
Uma dúzia de quilómetros andados, e a segunda paragem ocorreu na extinta freguesia de Orbacém. Ali, ouvimos descrever a sua história, visitámos a Igreja e relógio de sol barroco e apreciámos as habitações tradicionais em alvenaria de xisto que fazem parte do património edificado local.
A hora de almoço apertava, achávamo-nos nas margens do rio Âncora, num verdejante parque de merendas a convidar para uma pausa já merecida. Enquanto a água corria no leito calmo do rio num rumorejo suave, na sua pequena viagem para o mar, desfrutámos de um alegre piquenique confraternizador, em que o farnel composto por alguns deliciosos petiscos foi da responsabilidade de cada participante.
Altar-Mor Igreja de Gondar
Findo o ligeiro mas gostoso repasto, continuámos o nosso trajeto: estávamos em Gondar para cumprir a terceira etapa. Esta freguesia foi vigairaria da apresentação do convento de Tibães. Detivemo-nos na linda igreja paroquial, cuja traça é da primeira metade do século XVIII, com uma decoração barroca em talha polícroma de cores alegres caracteristicamente minhotas. Foi a vez de Eduardo Oliveira auxiliar na compreensão do talento decorativo que aí estava patente. Cumprimos ainda o delineado percurso por algumas habitações típicas do séc. XVIII e lugares sacralizados.
O tempo já se fazia escasso e partimos para a última etapa: o convento beneditino de S. João de Cabanas.
Este antigo mosteiro masculino, classificado como Imóvel de Interesse Público mas em uso privado, situa-se no lugar de Cabanas, em Afife, distrito de Viana de Castelo, implantado numa vertente da encosta, junto à margem direita do rio Afife, num local agradável e propício à irmanação absoluta com a natureza.
Aula em S. João de Cabanas
Encontrámos uma construção de pequenas dimensões, vedada por muros altos, reformulada no início do século XVII: constituída por igreja, uma torre sineira e dependências monásticas com pequeno claustro de planta quadrangular. O acesso principal fez-se por um portão com a epígrafe “Quinta de Cabanas”. Dali, visualizámos de imediato a fachada principal da igreja, em cujo frontispício encontramos um nicho com a imagem de S. João e, mais acima no tímpano, o brasão beneditino, simbologia de mosteiros da ordem de S. Bento.
Entrando na igreja, de planta longitudinal e uma só nave, pudemos observar a abóbada de berço, o coro-alto, o altar-mor e altares laterais com retábulos de talha, púlpitos quadrangulares sobre mísulas e encimados por janelas. Tivemos nessora o sempre esperado momento de aula de arte que a todos enriquece, proporcionado desta vez pela Presidente do Conselho Diretor, Aida Mata.
Claustro em S. João de Cabanas
Convirá registar que, do ponto de vista arquitetónico e decorativo, o corpo da igreja é, sem dúvida, a parte mais interessante deste espaço visitado. Inquieta-nos que, apesar da manutenção da limpeza existente, a humidade esteja a tomar conta progressivamente desta área com a indesejável degradação que o passar do tempo trará.
Visitámos de seguida o claustro, de dimensões reduzidas, e as restantes dependências conventuais. Ao centro da quadra do claustro está edificada uma fonte com tanque circular e imagem escultórica ao centro.
Antes de nos retirarmos, pudemos visitar parte da cerca conventual: uma ajardinada, outra agrícola, com uma vinha e um laranjal já a requerer manutenção, e a parte sobrante ocupada pela mata, esta separada do restante de modo natural pelo riacho que atravessa a propriedade.
Como no século XX, o Convento de São João de Cabanas ficou conhecido por ser o local onde o
Homenagem a Pedro Homem de Mello
poeta Pedro Homem de Mello viveu e escreveu, achamos oportuno prestar-lhe uma reconhecida e sentida homenagem com audição de um seu poema cantado admiravelmente pela fadista Amália Rodrigues, à volta da mesa de pedra situada nas traseiras da adega, debaixo de uma ramada refrescante, onde certamente o escritor terá meditado e redigido as suas composições poéticas e saboreado deliciosas refeições estivais.
Já fora do recinto, antes de encetarmos a viagem de regresso, despedimo-nos com a tradicional e animada foto de grupo, postada junto ao muro da cerca conventual.
  
Sócio do GAMT nº 2
Prontos para a partida
Igreja S. Cláudio de Nogueira
O Piquenique


Altar-Mor Igreja de Orbacém


Igreja de Gondar
Mosteiro de S. João de Cabanas

Habitação senhorial em Orbacém

Foto de grupo

Lembrando o órgão de tubos do Mosteiro de Tibães

No Verão de 2015, no âmbito das atividades do programa do "Dia da Freguesia", projeto da junta de freguesia de Mire de Tibães, o Grupo de Amigos do Mosteiro de Tibães procedeu, com o apoio da Paróquia, à recolha de memórias de residentes na freguesia acerca do Órgão de Tubos do Mosteiro de Tibães. Os testemunhos recolhidos foram trabalhados e apresentados publicamente, sob a forma de power point Memórias do órgão de tubos do Mosteiro de Tibães ), no dia 6 de Setembro, na tertúlia "Preservação da Memória do Órgão de Tubos do Mosteiro de Tibães", onde estiveram presentes cerca de 90 pessoas. 
Este trabalho visava não só a preservação de uma memória mas também mostrar à Direcção Regional da Cultura do Norte o interesse de uma população que reconhece o valor de um património, sentindo-o como seu e que quer vê-lo recuperado e ouvir de novo a sua música.
Órgão de tubos do Mosteiro de Tibães
A memória do órgão de Tibães e o reconhecimento da importância da música no seio da comunidade beneditina não terá sido indiferente à organização da 3ª edição do Festival de Órgão de Braga, que no próximo dia 8 de Maio, traz, à igreja do Mosteiro de Tibães, o concerto "Órgão e Amigos Medievais" em que o órgão “actualiza uma época em que estes instrumentos não se confinavam ao ambiente sacro estando também presentes em contextos profanos”. 
Este concerto é um dos seis do Festival, “que propõe uma viagem pelo mundo da arte, numa caminhada que aponta para o divino” a realizarem-se na Sé Braga, dia 6 de Maio; na Igreja da Conceição, dia 7 de Maio; na Igreja de Santa Cruz, dia 13 de Maio; na Igreja de Santa Maria de Adaúfe, dia 14 de Maio e na Igreja de S. Vítor, dia 15 de Maio. 
Lamentando que o órgão que vamos ouvir não seja o da igreja, o GAMT congratula-se por esta actividade que é um contributo importante na luta pela recuperação do Órgão de Tubos do Mosteiro de Tibães.

Aida Mata

GASTRONOMIA COM UM POUCO DE CIÊNCIA - 1ª Crónica “Ciência lambareira: explicar segredos da doçaria”

(workshop apresentada por Margarida Guerreiro, investigadora da Cooking.Lab)

No dia 19 de Março passado, e após uma visita ao Mosteiro de S. Martinho de Tibães guiada por Aida Mata e Anabela Ramos, que nos levou também ao refeitório e às velhas cozinhas do Mosteiro, eis-nos conduzidos até à cozinha da Hospedaria do Mosteiro.


Aqui e desde logo Margarida Guerreiro dá-nos a provar uma Manteiga de Limão (lemon curd) barrada sobre uns biscoitos em forma de barquinho e ainda Compotas de Abóbora sobre bolachas de água sal…enfim entradas deliciosas a prometer um casamento sério e duradouro da ciência com a doçaria tradicional….
Numa parede da cozinha Margarida ia projetando saberes atuais e tradicionais, e nestes reencontrámos diversas vezes recomendações das nossas Avós e Mães.

O poder de comunicação da Margarida e a sua sabedoria cativaram-nos de imediato, de tal modo que todos (as) queríamos ajudar, provar… enfim a cozinha depressa se tornou a nossa cozinha!
Muita ciência foi desvendada sobre os ovos na doçaria, a gelatina, as compotas e tantos outros “segredos”.
Não serei de todo exaustiva pois foi muito o que aprendemos naquela tarde, mas recordo que a Margarida preparou ali para nós uma saborosa e fofa Espuma de Lima e Manjericão, muito participada e saboreada por todos.
Entretanto e sob a supervisão da Conceição Loureiro Dias foi cozinhado um Arroz Doce delicioso. Também a propósito desta iguaria nacional ficámos a saber a importância da canela aqui!
Por fim esperava-nos uma surpresa, um manjar de reis, preparado ali à nossa vista: um Caviar de Manga!


E como diz o poeta: 
"Milhor é experimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo"

Maria Isabel Calado Ferreira


Lembrando Percursos Beneditinos GAMT - Porto

Eram meados de Novembro do ano findo quando aconteceu o décimo percurso beneditino. Pelas oito e trinta da manhã de sábado, partimos de Tibães em direção ao Porto. Tínhamos uma visita planeada ao Mosteiro de S. Bento da Vitória, Largo Amor de Perdição, Cadeia da Relação, Igreja de S. João da Foz.
Já no interior do Porto antigo, a autocarro parou nas proximidades do Jardim da Cordoaria e, dali, seguimos a pé até ao Mosteiro de São Bento da Vitória, onde Frei Geraldo J. A. Coelho Dias, OSB, nos esperava para falar do mosteiro, da instituição beneditina e do seu quotidiano monástico.
Penetrámos então pela rua de São Bento da Vitória, rua estreita e algo escura, e detivemo-nos junto a uma monumental fachada de estilo maneirista e barroco. Esperamos uns escassos minutos pelo segundo grupo, que se deslocou de comboio ou em viatura própria, enquanto apreciávamos os fantásticos portões construídos num rendilhado de ferro, encimados pelo brasão da ordem beneditina, que dão acesso ao interior da igreja do Mosteiro.
Transpondo o nobre pórtico de cantaria, tivemos um primeiro olhar do interior do templo de nave única com galilé, transepto saliente e capelas colaterais intercomunicantes. Viramos ligeiramente à esquerda, deparamos com um novo gradeamento em ferro artisticamente trabalhado e subimos rapidamente ao coro alto, onde deparamos com um cadeiral de talha em U de duas filas e espaldares com painéis esculpidos em relevo. É, sem dúvida, a joia mais preciosa da igreja, uma obra de surpreendente beleza do século XVIII. Dali, o nosso olhar ficou fascinado pela panorâmica, pois estávamos no topo, num verdadeiro miradouro que nos permitia admirar o paraíso estético da imensidão do templo: os órgãos simétricos, as abóbadas ritmadas, as esplendorosas sanefas rococó e, ao fundo, o altar-mor.
Aula de Frei Geraldo no Coro Alto S. Bento da Vitória
Começámos a ouvir Frei Geraldo J. A. Coelho falar da vida de S. Bento e do quotidiano dos beneditinos vivido naquele espaço de oração e arte. Descodificou-nos as imagens da vida de S. Bento contidas nos majestosos painéis emoldurados por talha rococó que nos oferecem uma narrativa original. É uma obra-prima de quadros esculpidos em madeira, em relevo, em dourados e policromados. As esculturas douradas e policromadas dos quatro santos beneditinos rematam, centralmente o cadeiral. Entre as várias histórias, recordamos o episódio do corvo e do pão envenenado.
Mas neste espaço deslumbrante também houve, infelizmente, tempo para desencantamentos: deparámos com a inaceitável intrusão de aves columbiformes, crê-se por um vidro partido, que com os seus dejetos estão a contribuir gradualmente para a degradação de parte do cadeiral. Espera-se que a urgente intervenção, pelos vistos não complicada, não peque por tardia.
Degradação do Cadeiral S. Bento da Vitória
Depois disto, descemos à nave central e fomos caminhando e apreciando os altares laterais, os púlpitos estrategicamente situados junto ao transepto com retábulos apoteóticos, a capela-mor com um retábulo barroco imponente ladeado de colunas torsas salomónicas, a sanefa do arco cruzeiro numa ondulação hiperbólica.
Para terminarmos, passámos por um corredor com um lavabo barroco decorado com dois mascarões e entrámos na sacristia com um enorme arcaz e espelhos de estilo rococó. Saímos, despedindo-nos de Frei Geraldo, pela rua das Taipas, apreciando uma iconografia beneditina composta de diversos santos.

Como a hora do meio-dia já apertava, dirigimo-nos à cadeia da Relação, já no âmbito do Jardim da Cordoaria. Passámos no Largo Amor de Perdição, onde a estátua em mármore "Amores de Camilo" do escultor Francisco Simões foi motivo para uma conversa sobre Camilo, os seus amores e a sua passagem forçada pela Cadeia da Relação.
Henrique Expondo a Vida de Camilo
Aqui, o sócio do GAMT, Henrique Barreto Nunes, falou sobre Camilo Castelo Branco, hóspede por duas vezes, ambas resultantes das suas aventuras amorosas: a primeira em 1846, cerca de dez dias, por causa da sua relação com Patrícia Emília de Barros; a segunda, por pouco mais de um ano, entre 1860 e 1861, “incurso no crime de adultério”, praticado com Ana Augusta Plácido. Citou episódios que descrevem o interior da prisão, as personagens invulgares que Camilo recorda nas “Memórias do cárcere” (1862) e ali começou a escrever: o chefe guerrilheiro Milhundres; António J. Coutinho, fabricante de moeda falsa; José do Telhado, salteador célebre, e o general “Caneta”. Referiu que Camilo fez aí diversas traduções, colaborou nos jornais “O Nacional” e “Revolução de Setembro”, redigiu em quinze dias “Amor de Perdição”, encontrou inspiração para outras obras “Maria da Fonte” e “Romance de um homem rico”.

Depois de um breve almoço confraternizador na zona da Cordoaria, pelas quinze horas, voltámos à memória beneditina e visitámos a igreja de S. João Baptista da Foz, a herdeira setecentista da velha igreja de S. João Baptista existente no forte de S. João da Foz.
Interior da Igreja S. João da Foz
Ali chegados, deparámos com uma igreja do século dezoito, de aparência descomplicada, abrigando um extraordinário tesouro barroco. Na fachada, o portal emoldurado e rematado por frontão circular interrompido é encimado por um nicho onde se expõe a imagem de São João Baptista. Nos nichos laterais figuraram, antigamente, as imagens de São Bento e Santa Escolástica. O alçado termina em frontão circular e cruz de pedra, ladeado pelas torres sineiras.

Entrando, deparámos com o interior de uma igreja barroca, de planta longitudinal, nave única, seis capelas colaterais com os diferentes padroeiros e capela-mor, todas com retábulos de talha dourada esplendorosa. Rui Osório, cónego da paróquia de S. João Baptista da Foz do Douro, homem também dedicado às causas do património, acompanhou-nos numa excecional visita guiada, recheada de episódios pessoais relativos ao restauro, asseio e conservação deste deslumbrante templo barroco.
Ao entardecer, regressámos a Braga com os olhos cheios da arte de mestres que tão bem trabalharam a pedra, a madeira e o ouro, alguns de nós já conhecidos.
Aula do Cónego Rui Osório na Igreja da Foz
A visita, de enorme qualidade, foi fortemente participada, excedendo mesmo a meia centena de intervenientes, fator que serve de estímulo à continuidade dos percursos beneditinos. Pretenderia deixar um registo de um enorme agradecimento aos guias extraordinários locais e aos que nos acompanham jornada a jornada, pois sem a sua presença não teríamos acesso a estes monumentos com os seus importantes detalhes elucidativos.

Sócio do GAMT nº 2



Portão de Entrada Rendilhado em Ferro
Orgão de S. Bento da Vitória
Magnífica Vista do Coro Alto S. Bento da Vitória
Majestoso Cadeiral do Coro Alto S. Bento da Vitória


Estátua de Camilo
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Eduardo Oliveira Explicando a Arte
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